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BANCADA
Crónica

A camisola falsa que todos já tivemos

Antes da original, veio sempre a do mercado — o nome do craque mal escrito, o número a descolar à segunda lavagem. E, sejamos sinceros, nenhuma camisola cara voltou a dar a mesma alegria que aquela.

Antes da original, veio sempre a outra. A do mercado, a do vendedor na esquina, a que custava o que a semana permitia. O nome do craque estava quase certo — faltava uma letra, sobrava outra. O número começava a descolar à segunda lavagem. E ainda assim, quando a vestias, eras o jogador. Não parecido com ele: eras ele.

Toda a gente teve uma. É quase um rito de passagem do adepto angolano: a primeira camisola não se compra numa loja oficial, ganha-se na rua, e traz o clube do coração escrito com um erro que ninguém repara porque ninguém liga. O que importava não era a etiqueta. Era o escudo, a cor, a sensação de pertencer a uma coisa maior.

E aqui vai a confissão

Muitos de nós, hoje, já podem comprar a original. A cara, a de tecido bom, a que vem na caixa. E — sê sincero — nenhuma voltou a dar a mesma alegria que a falsa da infância. A original é bonita. A outra era felicidade pura, sem saber o preço, sem saber que era falsa, sem querer saber.

Porque a camisola nunca foi sobre o pano. Era sobre o miúdo que a vestia e corria para a rua a jogar até escurecer, convencido de que aquele bocado de tecido o transformava em craque. E, à maneira, transformava. A magia não estava na costura. Estava em quem a vestia e em quanto acreditava.

Guarda a original na caixa se quiseres. Mas não te esqueças da outra — a do nome mal escrito, a que descoloriu ao sol. Foi essa que te fez adepto. As caras vieram todas depois.

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