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BANCADA
Crónica

A caderneta de cromos que nunca completaste

Faltava sempre um. Trocavas repetidos no recreio, abrias a carteira com o coração aos saltos, e aquele cromo teimava em não aparecer. A caderneta ficou por acabar — e, por isso mesmo, nunca a esqueceste.

Tinhas uma caderneta e um sonho: enchê-la toda. Abrias cada carteira de cromos com uma cerimónia que mais nenhuma coisa na vida merecia — rasgar devagar, espreitar, e depois a euforia de um novo ou a desilusão surda de mais um repetido. Colavas com cuidado de relojoeiro, alisavas com o dedo, e recuavas para ver a página a ganhar forma. Página a página, a tua coleção crescia.

E depois havia o recreio, que era a bolsa de valores. Trazias os repetidos atados com um elástico e negociavas como gente grande: um craque por três médios, um brilhante por seis vulgares, aquele que toda a gente queria valia metade do caderno. Aprendeste a negociar ali, no chão da escola, muito antes de a vida te ensinar o resto. E aprendeste também a ser roubado, e a não chorar por isso — ou a chorar baixinho.

Faltava sempre aquele

Mas havia sempre um. Aquele cromo que não aparecia por mais carteiras que abrisses, por mais trocas que fizesses, por mais vezes que implorasses a quem comprava mais do que tu. Dizia-se que era raro de propósito, que quase não imprimiam, que só os sortudos o tinham — e tu nunca foste esse sortudo. A tua caderneta tinha um buraco, sempre o mesmo, a olhar para ti de cada vez que a abrias.

E o ano acabava, vinha caderneta nova, e a antiga ficava por completar. Guardavas-a na mesma, incompleta, porque deitar fora era impensável — era o teu trabalho, a tua coleção, meses da tua vida ali colados. Ficava numa gaveta, com o buraco intacto, uma pequena derrota adiada para sempre.

Hoje olhas para trás e percebes a graça da coisa: se a tivesses completado, provavelmente já não te lembravas dela. É o buraco que a torna inesquecível. É a falta que a mantém viva. A caderneta que ficou por acabar ensinou-te, sem tu dares conta, que às vezes o que fica por completar é o que mais guardamos.

Se ainda tens uma dessas numa gaveta qualquer, não a abras à procura do buraco. Abre-a pelas páginas cheias — pelo trabalho de meses, pelas trocas do recreio, pelo miúdo paciente que colava cada cromo como se fosse ouro. Esse miúdo valia mais do que a caderneta inteira.

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