O Mundial: quando a rua para por uma seleção que não é nossa
De quatro em quatro anos, Angola adota uma seleção que não é a dela — o Brasil, Portugal, a Argentina — e sofre por ela como se fosse. É o único torneio que nos faz torcer pela bandeira dos outros com o coração todo.
De quatro em quatro anos acontece uma coisa estranha e linda. As Palancas Negras não estão lá — quase nunca estão — e mesmo assim a rua para. O Mundial chega, e Angola escolhe uma seleção que não é a sua para sofrer como se fosse. O Brasil da malta. Portugal, pela língua e pelo Cristiano. A Argentina, por causa do Messi. E de repente estamos todos a torcer pela bandeira dos outros com o coração inteiro.
Não há vergonha nenhuma nisto. Há fome de festa grande. O Mundial é o único momento em que o mundo inteiro joga o mesmo jogo ao mesmo tempo, e um angolano não fica de fora só porque a sua seleção não se qualificou. Adota-se uma, discute-se nas esplanadas, e o país divide-se em cores que não são as nossas — mas que naquele mês passam a ser.
O que isto diz sobre nós
Diz que amamos o futebol acima da bandeira. Que preferimos estar dentro da festa a assistir de fora só porque não temos convite oficial. Um Mundial em Angola vive-se com a mesma intensidade que num país que está a jogar a final — os grupos de WhatsApp ardem, as apostas de esplanada multiplicam-se, e quem escolheu a seleção errada leva com a gozação até ao torneio seguinte.
E há sempre aquele sonho, no fundo, que ninguém diz em voz alta: que um dia a seleção adotada sejamos nós. Que a rua pare por causa das Palancas, não do Brasil. Já aconteceu uma vez, em 2006, e quem viveu não esqueceu — foi o país inteiro a olhar para o mesmo sítio, pela primeira vez, por causa dos seus.
Até lá, adotamos. Sofremos pelo Brasil, gritamos com Portugal, choramos com a Argentina. E na próxima esquina há sempre alguém de camisola de uma seleção que não é a dele, a viver aquilo como se a vida dependesse. Porque, naquele mês, depende.
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