Os nossos lá fora: e a gente quase nem repara
Enquanto discutimos o Real e o City, há angolanos e filhos de angolanos a pisar os relvados grandes da Europa. São os nossos — e merecem que se saiba o nome antes de o mundo o dizer por nós.
Passamos a semana a discutir o Real e o City como se fôssemos sócios. E depois passa na televisão um jogo qualquer de uma liga europeia, a câmara fecha num miúdo com um apelido que soa a casa — Cabral, Dala, Mabululu, um Neto qualquer — e ninguém em Luanda pestaneja. É dos nossos. E deixámos passar.
Não é falta de orgulho. É hábito. Habituámo-nos a olhar para o futebol grande de longe, a torcer por quem já é gigante, e esquecemos que há sangue nosso a abrir caminho lá dentro, sem holofote, a jogar contra os que idolatramos.
O que é ser “dos nossos” hoje
É mais largo do que parece. Há o angolano de nascença que emigrou miúdo e se fez jogador na Europa. Há o filho de angolanos nascido em Lisboa, em Paris, em Roterdão, que podia escolher outra bandeira e escolheu — ou ainda pode escolher — a nossa. E há o que a imprensa de fora chama “português de ascendência angolana” como se a segunda metade da frase fosse detalhe. Não é detalhe. É metade do homem.
A diferença entre acompanhar o Mbappé e acompanhar um destes é simples: o primeiro não sabe que existes. O segundo carrega, sem saber, um bocado de ti. Quando ele marca num estádio grande, não é só um golo — é uma prova de que de cá também se sai.
O trabalho que este sítio quer fazer é esse: saber o nome antes de o mundo o dizer por nós. Onde joga, como está a época, quando é internacional. Não por estatística — por respeito. O gigante da Europa não precisa do nosso aplauso; tem o do mundo inteiro. O nosso, esse, faz falta em casa.
Da próxima vez que a câmara fechar num apelido que soa a Luanda, não deixes passar. Vê o nome. Guarda-o. É dos nossos, e os nossos merecem ser vistos primeiro por nós.
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