Saltar para o conteúdo
BANCADA
Crónica

O golo que viste nascer e contas até hoje

Todos temos um. Aquele golo que vimos ao vivo, no sítio certo, à hora certa — e que contamos há anos como se tivesse sido ontem. No futebol, quem estava lá carrega uma medalha que ninguém pode copiar.

Toda a gente tem um. Aquele golo. Não o mais bonito da história, não o mais importante do mundo — o teu. O que viste nascer, ao vivo, no sítio certo, à hora certa, e que contas há anos com os mesmos gestos, a mesma pausa antes do fim, o mesmo brilho nos olhos de quem revive em vez de recordar.

E repara na diferença. Há mil golos maiores em vídeo, disponíveis a qualquer segundo no telemóvel. Mas nenhum vale o que vale aquele que apanhaste em direto, sem saber que ia acontecer, com o coração desprevenido. Ver a repetição é saber o fim antes do princípio. Estar lá é não saber nada — e é por isso que fica.

Porque é que o contamos tantas vezes

Porque contar aquele golo é uma forma de o guardar. Cada vez que o narras — na esplanada, no grupo, ao miúdo que nem tinha nascido — voltas ao instante em que o viste, e levas alguém contigo. O ouvinte revira os olhos, já ouviu a história vinte vezes, mas tu não estás a contar por ele. Estás a contar para não deixar morrer.

E há uma vaidade honesta nisto: quem estava lá carrega uma medalha que ninguém pode copiar nem descarregar. “Eu vi ao vivo” são quatro palavras que valem mais do que qualquer coleção de vídeos. É o futebol a dar-nos aquilo que o dinheiro não compra — a sorte de ter estado no lugar certo quando a magia decidiu acontecer.

Por isso continua a contar o teu golo. Conta-o mal, conta-o exagerado, conta-o pela milésima vez. Um dia alguém vai contar o dele a ti, com o mesmo brilho, e vais perceber que é disto que o futebol é feito: não de troféus, mas de instantes que um punhado de gente viu e nunca mais largou.

Mais crónicas