O rádio antes da televisão: como o avô ouvia o jogo
Antes do ecrã, o futebol entrava em casa pelo ouvido. O avô colado ao rádio, a imaginar o golo pela voz do locutor. Quem viveu aquilo sabe: às vezes ouvir era ver melhor.
Antes de o futebol ter imagem, tinha voz. E que voz. O avô sentava-se ao pé do rádio, subia o volume até quase estalar, e ficava ali, imóvel, a olhar para um aparelho que não mostrava nada — porque tudo o que precisava de ver estava na garganta do locutor.
Havia uma arte nisto que se perdeu. O relator não descrevia o jogo: desenhava-o. “A bola corre pela direita, abre para o meio, cuidado, CUIDADO…” — e a casa inteira suspendia a respiração antes de saber se tinha sido golo. Não víamos o lance. Construíamo-lo, cada um no seu quarto, com a mesma matéria-prima e um resultado diferente na cabeça de cada um.
O que se ganhava sem imagem
Ganhava-se imaginação. O golo que ouvimos no rádio era sempre mais bonito do que qualquer repetição — porque o pintámos nós, à medida do nosso desejo. O avô jurava ter “visto” jogadas que nunca aconteceram bem assim, e tinha razão à maneira dele: viu-as, na única tela que interessava, a de dentro.
Hoje temos tudo em alta definição, câmara lenta, dezassete ângulos do mesmo penálti. E mesmo assim, quem cresceu com o rádio guarda uma saudade estranha daquele tempo em que o futebol era um segredo sussurrado ao ouvido, e não um espectáculo entregue de bandeja. Às vezes, ouvir era ver melhor.
Da próxima vez que um jogo importante coincidir com uma falha de energia, não te queixes logo. Liga o rádio do telemóvel, fecha os olhos, e deixa a voz fazer o resto. Vais reencontrar o teu avô — e um futebol que quase esquecemos como se sentia.
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