A bola de trapos
Antes da bola a sério, houve a de meias, sacos e cordel. Não saltava, não rolava direita, doía menos no pé descalço — e foi com ela que aprendeste tudo o que sabes.
Antes de teres uma bola a sério, tiveste a que fizeste com as mãos. Meias velhas por dentro, sacos de plástico por fora, tudo apertado com cordel até ficar redondo — ou quase. Não saltava como deve ser, não rolava a direito, murchava ao fim de uma tarde. Mas era tua, custou zero, e com ela aprendeste tudo.
Havia técnica na coisa. Poucos sacos e a bola ficava mole, sem vida, morria no primeiro toque. Sacos a mais e ficava dura como pedra, capaz de arder o pé descalço num remate mal dado. O ponto certo era um segredo de bairro, passado de irmão para irmão, e o miúdo que sabia fazer a melhor bola tinha um estatuto que nenhum craque de televisão lhe tirava.
Ensinou-te mais do que qualquer relvado
Repara no que aquela bola te obrigou a aprender. Como ela não rolava direita, tinhas de dominar o imprevisto — o toque nunca vinha onde esperavas, e por isso ficaste rápido a corrigir. Como pesava pouco, não dava para chutar com força; dava para acariciar, para colocar, para pensar. Sem saber, estavas a treinar o mais difícil do futebol num chão de terra batida, com uma bola que não existe em loja nenhuma.
E jogava-se em qualquer lado. Não precisavas de campo, de balizas, de árbitro. Duas pedras, um quintal, uma rua sem carros por dez minutos — e estava montado o clássico. A bola de trapos não pedia licença a ninguém. Aparecia debaixo do braço de um miúdo e, de repente, havia jogo.
Depois chegou a bola a sério, a de couro, a que salta e brilha, e foi uma festa — mas foi também o fim de uma coisa. Com a bola boa, começaram a fazer falta o campo bom, as chuteiras, a licença dos crescidos. O futebol subiu de qualidade e perdeu um bocado de liberdade pelo caminho.
Por isso, quando vires um miúdo a correr atrás de um embrulho de sacos numa rua de terra, não penses que lhe falta alguma coisa. Está a ter o mesmo que tu tiveste, e talvez o melhor: um jogo que é só dele, feito com as próprias mãos, que não deve nada a ninguém.
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