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BANCADA
Crónica

A camisola da seleção que só vestes de dois em dois anos

Passa o ano fechada na gaveta. Depois chega a CAN, ou chega o Mundial, e de repente toda a gente é patriota outra vez. A camisola da seleção mede o país por ela: aparece quando é preciso acreditar em conjunto.

A camisola da seleção passa o ano na gaveta. Dobrada, quieta, esquecida por baixo das outras. Durante meses ninguém se lembra dela — o que dá conversa é o clube, a liga, o craque lá fora. E depois chega a CAN, ou chega o Mundial, e a gaveta abre-se em todo o país ao mesmo tempo.

De repente, toda a gente é patriota. O vizinho que só falava da Europa aparece com a bandeira na varanda. A tia que jurava não perceber nada de bola já sabe o nome do avançado. A rua enche-se de uma cor só, os carros buzinam por antecipação, e aquela camisola que estava a apanhar pó volta a fazer sentido — porque de repente há uma razão para a vestir.

É a única que se veste em conjunto

A camisola do clube divide. A da seleção junta. É a única que podes usar ao lado do teu maior rival de esplanada sem que nenhum dos dois se sinta traído. Naqueles dias, o do Petro e o do 1.º de Agosto sentam-se no mesmo banco, calam a maka de sempre e gritam pela mesma coisa. É raro. É por isso que importa.

Há quem diga que é patriotismo de conveniência, que só aparece quando há torneio, que se guarda outra vez à primeira derrota. E talvez seja. Mas há uma verdade mais simples por baixo disso: a seleção é a única equipa que é de toda a gente. Não a escolheste, não a herdaste do teu pai por causa de uma zanga antiga — nasceste com ela. É a camisola que diz de onde és antes de dizer de quem és.

Por isso ela pode passar o ano na gaveta sem problema nenhum. Não é abandono. É espera. Ela sabe que, quando chegar a altura de o país inteiro precisar de acreditar na mesma coisa ao mesmo tempo, é a ela que vais buscar. Nenhuma camisola de clube faz isso.

Vai à gaveta. Confirma que ainda lá está. Não a vistas hoje — guarda-a. Mas sabe que, no dia em que a rua se encher de bandeiras outra vez, vais ser dos primeiros a pô-la. E vais fingir que nunca a tiraste.

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