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BANCADA
Crónica

A final que perdeste e o caminho para casa

Ninguém te prepara para o silêncio de depois. A rua que ia ser festa fica muda, o caminho para casa parece o dobro, e a camisola pesa. É aí, e não no apito, que se aprende mesmo a ser adepto.

Toda a gente sabe descrever a alegria de ganhar. A parte de que ninguém fala é a outra: o caminho para casa depois de perder a final. Ninguém te prepara para aquele silêncio. Para a rua que ia ser festa e ficou muda. Para o percurso de sempre que, naquela noite, parece o dobro do comprimento.

Vestiste a camisola de manhã cheio de certeza. Preparaste a alegria com antecedência, já sabias onde ias festejar, com quem, a que horas. E de repente o apito soa e não há festa nenhuma — há só tu, a mesma camisola, agora a pesar, e um caminho para andar com um nó na garganta que não passa por mais que engulas.

A cidade inteira sabe pelo silêncio

O mais estranho é a cidade. Depois de uma vitória, ouve-se de longe — buzinas, gritos, panelas. Depois de uma derrota, ouve-se também, mas é o contrário: um silêncio pesado que atravessa os bairros e que toda a gente reconhece. Não é preciso perguntar o resultado a ninguém. A rua conta-o pela ausência de barulho.

E há os outros, os do lado que ganhou, a passar por ti a festejar. Nesse momento aprendes o mais difícil de ser adepto: engolir. Não estragar a festa alheia, não arranjar confusão, levar a derrota com a coluna direita mesmo com o peito em baixo. Ninguém te ensina isto. Aprende-se de uma vez só, à força, numa noite que não querias.

Mas repara numa coisa, quando o nó começar a afrouxar. Só dói assim porque importou assim. Só se perde uma final quando se amou o suficiente para lá chegar a sonhar com ela. A dor é a fatura do quanto te importaste — e há coisas piores do que importar-se demais com um jogo.

Chega a casa. Tira a camisola, dobra-a com cuidado, não a escondas com raiva. Amanhã o sol nasce, o campeonato recomeça, e tu vais voltar a vestir aquela cor. Porque é isso que os adeptos fazem: perdem a final, fazem o caminho para casa em silêncio — e no domingo seguinte estão lá outra vez.

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