Saltar para o conteúdo
BANCADA
Crónica

A mãe que não percebe de bola mas sabe quando perdeste

Nunca soube o que era um fora-de-jogo e nunca fez questão de saber. Mas bastava-lhe ver-te entrar em casa para saber o resultado antes de perguntar. O futebol dela nunca foi o jogo — foste sempre tu.

A tua mãe nunca percebeu de bola. Não sabe o que é um fora-de-jogo, troca os nomes dos jogadores, chama-lhes a todos “esse aí”, e nunca, nem uma vez, fez questão de aprender. E, no entanto, é a pessoa que melhor leu o futebol na tua vida — porque ela nunca viu o jogo. Viu-te sempre a ti.

Bastava-lhe a porta. Pela forma como entravas em casa, ela já sabia o resultado antes de perguntar. Entravas devagar, calado, direto ao quarto — perdeu. Entravas aos saltos, com fome, a falar alto — ganhou. Ela nunca precisou de tabela nenhuma. Tinha-te a ti como marcador, e nunca falhava.

O jogo dela era outro

Enquanto tu sofrias por onze homens que não te conhecem, ela sofria por um só, que era o dela. Não lhe interessava se o penálti foi ou não foi. Interessava-lhe que não ficasses assim tão triste por causa de uma bola. Ralhava — “é só um jogo, filho” — e tinha razão, tinha toda a razão, e mesmo assim não resolvia nada, porque naquela idade não era só um jogo, era o mundo inteiro.

Com o tempo, percebeste a manha dela. Aquele “é só um jogo” não era ignorância. Era a única pessoa da casa a lembrar-te de que havia vida para lá do resultado de domingo. Todos os outros entravam na tua tristeza; ela ficava de fora de propósito, para te poder puxar cá para cima quando precisasses. Alguém tinha de ficar em terra firme.

Hoje já não moras lá, já não entras por aquela porta ao domingo à tarde. Mas se ligares depois de uma derrota grande, ela ainda percebe pela voz. Continua sem saber o que é um fora-de-jogo. Continua a saber tudo o que interessa.

Da próxima vez que o teu clube perder, liga-lhe na mesma. Não para falar do jogo — ela não vai perceber, e ainda bem. Liga só para ela ouvir que estás bem. É a única coisa que ela sempre quis ganhar.

Mais crónicas