A primeira vez que levaste o teu filho ao jogo
Passaste a vida a ser o miúdo que o pai levava. E de repente inverteste-te: és tu que seguras a mão pequena na multidão, tu que apontas o relvado, tu que explicas. E percebes o que o teu pai sentia — tarde, como sempre se percebe.
Passaste a infância inteira do outro lado desta cena. Eras tu o miúdo de mão dada, a olhar para cima, a perguntar tudo, a ser levado. E um dia, sem dar por isso, a cena virou-se: agora és tu que seguras a mão pequena para não a perder na multidão, tu que apontas o relvado lá em baixo, tu que respondes às perguntas todas. Passaste para o lugar do teu pai, e ninguém te avisou de que ia acontecer assim tão depressa.
Ele não quer saber do jogo. Isso custa a aceitar. Preparaste aquilo com semanas de antecedência, imaginaste a cara dele no golo — e ele quer é o lanche, quer saber porque é que aquele senhor está a gritar, quer ir à casa de banho precisamente ao minuto em que a bola vai entrar. O jogo, para ele, é o menos importante do dia. E está certíssimo.
Percebes o teu pai, tarde como sempre
Porque de repente cai-te a ficha: era exatamente assim contigo. O teu pai também deve ter sonhado com a tua reação ao golo e levado com um miúdo que só queria o lanche. E aguentou. Levou-te na mesma, ano após ano, sabendo que metade das vezes tu nem estavas a ver o jogo. Percebes agora o que ele sentia — tarde, que é a única hora a que um filho percebe o pai.
E percebes também que não foi pelo jogo. Foi para ter aquilo. As horas contigo, a mão pequena na dele, as perguntas parvas, o cheiro do relvado que ias associar a ele para o resto da vida. O resultado esquece-se no dia seguinte. Aquela tarde, não. Ele sabia disso. Por isso te levou.
O teu filho não se vai lembrar do resultado deste jogo. Provavelmente nem se lembra de quem jogou. Mas daqui a trinta anos, quando levar o filho dele pela primeira vez, vai sentir uma coisa estranha no peito à entrada do estádio e não vai saber bem o quê. Vais ser tu. Vai ser esta tarde, guardada onde ele nem sabe que a guardou.
Por isso não te chateies que ele não veja o jogo. Não o trouxeste para ele ver o jogo. Trouxeste-o para, um dia, ele trazer alguém. É assim que isto se passa de mão em mão.
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