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BANCADA
Crónica

A rádio do candongueiro ao domingo

Entravas para ir a um lado e saías a saber o resultado. O motorista punha o jogo alto, estranhos comentavam como se fossem da família, e por dez minutos aquele candongueiro apertado era o sítio mais unido da cidade.

Entravas para ir a um lado qualquer e saías a saber o resultado. Ao domingo, o candongueiro não era só transporte — era uma bancada em movimento. O motorista punha a rádio alta, com o jogo a rachar pelos altifalantes gastos, e de repente aquela lata apertada, cheia de gente que não se conhecia, virava um só corpo à espera do próximo lance.

E a magia era essa: os estranhos deixavam de o ser. O senhor do fundo comentava a defesa como se estivesse na sala de casa. A senhora do lado, que ia com as compras no colo, soltava um estalo de língua na jogada perdida. Discutia-se de banco para banco, com pessoas cujo nome nunca saberias, sobre um jogo que nos punha a todos do mesmo lado sem ninguém combinar nada.

Dez minutos de cidade unida

Havia uma regra tácita e toda a gente a cumpria: quando o locutor levantava a voz, calava-se o candongueiro inteiro. O motorista subia o som sem tirar os olhos da estrada. Ninguém falava. E naquele silêncio coletivo, à espera de saber se a bola tinha entrado, éramos todos a mesma pessoa — o cobrador, o estudante, a mãe com as sacolas, o velho de boné. Dez minutos em que a cidade toda cabia numa viagem.

E depois vinha o grito, ou vinha o queixume, e a lata explodia junta. Estranhos a bater palmas uns aos outros, a lamentar-se em coro, a rir do azar comum. Chegavas ao teu destino e saías dali com uma coisa que não estava planeada: tinhas vivido o jogo com quinze pessoas que nunca mais ias ver, e por dez minutos foram a tua equipa.

Hoje cada um leva o jogo no bolso, com auricular no ouvido, isolado no seu ecrã, calado no meio de toda a gente. Vê-se melhor, ouve-se em qualquer lado — e perdeu-se aquele barulho comum, aquela cidade que se juntava por acaso numa viagem de domingo.

Da próxima vez que apanhares um candongueiro ao domingo e o motorista tiver o jogo alto, não ponhas o auricular. Deixa-te ficar no barulho. É das últimas praças onde a cidade ainda vê o jogo toda ao mesmo tempo, em voz alta, como devia ser.

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