O árbitro, o inimigo de toda a gente
É a única figura do jogo que consegue a proeza de ser odiada pelos dois lados ao mesmo tempo. Erra sempre contra ti e nunca a favor. E, no entanto, sem ele não há jogo nenhum.
Existe uma figura no futebol que consegue uma coisa que nem o maior craque consegue: ser odiada pelos dois lados ao mesmo tempo. Ganhes ou percas, ele errou. Marcou o penálti que não era, não marcou o que era, mostrou o cartão a mais e engoliu o que fazia falta. O árbitro é o único homem em campo contra quem toda a gente concorda.
E é curioso como a memória escolhe. Da vitória, lembras-te do golo. Da derrota, lembras-te do árbitro. Nunca da defesa mal feita, nunca do teu avançado que falhou sozinho — não, a culpa tem sempre uma cara, e essa cara está de preto no meio do campo, a correr, sozinha, com meio estádio a chamar-lhe nomes.
Precisamos dele para ter em quem descarregar
A malta diz que quer justiça, mas não é bem verdade. Se o árbitro acertasse tudo, não sobrava desculpa nenhuma para a derrota — e uma derrota sem desculpa é dura demais para se carregar. O árbitro é o saco onde despejamos a raiva que não cabe em mais lado nenhum. Faz parte do serviço. Vem no pacote, junto com o apito.
Repara que ninguém aplaude um árbitro. No fim do melhor jogo do ano, todos falam dos jogadores; se falam dele, é porque estragou. O trabalho perfeito dele é passar despercebido — e não há profissão mais ingrata do que aquela em que fazer tudo bem significa que ninguém deu por ti.
Mas experimenta tirá-lo. Um jogo de rua sem árbitro é uma discussão com bola pelo meio. Foi golo, não foi, tocou na mão, não tocou — dez minutos parados a gritar, e o jogo morre ali. É preciso alguém que decida, mesmo que decida mal, só para o jogo poder continuar. Essa pessoa é o árbitro. Ele existe para o jogo não parar.
Da próxima vez que ele errar contra o teu clube — e vai errar, é garantido — grita à vontade, faz parte. Mas no fundo, bem lá no fundo, dá-lhe um bocadinho de razão. Sem aquele homem odiado no meio do campo, não havia campo nenhum onde odiar.
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