O golo na própria baliza
Não há pior solidão no desporto. A bola entra na baliza errada, o estádio cala-se, e um homem fica ali parado com uma culpa que não cabe num corpo só. E, no entanto, quase sempre foi só azar — e coragem a mais.
Não há solidão maior no desporto do que a de quem marca na própria baliza. A bola entra do lado errado, faz-se um silêncio estranho — meio susto, meio riso preso — e, no meio do campo, um homem fica parado, de mãos na cabeça, com uma culpa demasiado grande para caber num corpo só. Toda a gente olha para ele. E não há para onde correr.
O cruel é que quase sempre nasce de uma coisa boa. Ninguém marca na própria baliza a fugir do lance. Marca-se a tentar cortar, a esticar a perna para tirar a bola antes que o avançado chegue, a fazer o esforço que ninguém pediu. É o defesa que se atira que sofre a desgraça; o que fica a ver não corre esse risco. O autogolo é, quase sempre, o preço de ter tentado ajudar.
A culpa de um que era de todos
E é injusto como a memória o guarda. Um jogo tem mil erros — o passe falhado, a marcação perdida, o avançado que não apareceu. Repartem-se todos, esquecem-se todos. Mas o autogolo tem cara, tem nome, tem repetição. Fica a ser dele, só dele, quando na verdade foi a soma de tudo o que correu mal antes e que outros deixaram chegar ali. O último a tocar leva a fatura de uma dívida que era de toda a equipa.
Há uma lição dura nisto, e serve para muito mais do que futebol. Às vezes fazes tudo certo, tentas ajudar, estendes a perna pelos outros — e é exatamente aí, no gesto de te esforçares, que a coisa te explode nas mãos. E o mundo, que raramente vê o esforço, vê só o resultado, e escreve o teu nome ao lado do desastre. Quem nunca marcou na própria baliza da vida é porque nunca se atirou a nada.
Por isso, quando vires um jogador de mãos na cabeça depois de um autogolo, não te rias muito. Ele não fugiu do lance — atirou-se a ele. Pagou, sozinho e à frente de todos, o preço de ter tentado. Devia ser abraçado, não gozado. Foi o único com coragem de meter a perna onde a bola queimava.
No jogo seguinte, ele vai voltar a atirar-se. É isso que faz dele jogador. E é isso que devíamos aplaudir — não o golo certo, que é fácil de festejar, mas a coragem de continuar a tentar cortar, mesmo depois do dia em que a bola entrou do lado errado.
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