O ídolo que mudou de clube
Tinhas a camisola com o nome dele. Beijava o emblema, dizia que ficava para sempre. E um dia apareceu na televisão com outra cor vestida. Foi aí que percebeste que o futebol também é negócio — e cresceste um bocado à força.
Houve um em que acreditaste a sério. Tinhas a camisola com o nome dele nas costas, imitavas o festejo dele no quintal, defendias-o em qualquer discussão como se fosse da família. Ele beijava o emblema depois de marcar, dizia nas entrevistas que ali era a casa dele, que nunca sairia. E tu acreditaste, porque com essa idade acreditar ainda era fácil.
Depois veio o dia. Ligaste a televisão e lá estava ele — com outra cor vestida, outro emblema ao peito, a sorrir numa apresentação como se a anterior nunca tivesse existido. E não foi só um jogador a mudar de clube. Foi uma coisa dentro de ti a partir-se, baixinho, sem barulho.
Foi o dia em que percebeste o negócio
Aquilo ensinou-te qualquer coisa que a escola não ensina: que por trás do jogo bonito há contratos, dinheiro, gente a decidir em salas onde a paixão não entra. O beijo no emblema, afinal, cabia em qualquer emblema. A palavra “para sempre” tinha data de validade e estava escrita a lápis. Cresceste um bocado à força, naquele dia, à frente de uma televisão.
Com o tempo, aprendeste a não levar tão a peito. Percebeste que o jogador também tem a vida dele, a carreira curta, a família para sustentar, a janela pequena para ganhar o que o corpo aguenta. Não te devia lealdade nenhuma — devia-a a si próprio. A lealdade cega era tua, não dele. E a lição foi essa: guarda o coração para o clube, que fica, não para o homem, que passa.
Mas há uma parte que não muda de cor. Aquilo que ele te fez sentir quando marcava, o festejo que imitaste, as tardes que passaste a jogar a fingir que eras ele — isso não foi para outro clube. Ficou contigo. Ele levou a camisola; a memória não cabia na mala.
Por isso não rasgues a velha camisola com o nome dele. Guarda-a, mesmo desbotada. Não é a ele que ela pertence já — é ao miúdo que a vestia e que ainda acreditava que “para sempre” era mesmo para sempre. Esse miúdo merece uma recordação.
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