O estádio que só viste na televisão
Há um estádio que conheces de cor sem nunca lá teres entrado. Sabes o nome, a cor das cadeiras, o hino que a bancada canta. Vive na tua cabeça há anos — e um dia, talvez, hás-de pisar aquele relvado.
Há um estádio que conheces melhor do que a tua própria rua, e nunca lá puseste os pés. Sabes o nome de cor. Sabes a cor das cadeiras, o desenho do relvado visto de cima, o canto da bancada onde os adeptos mais barulhentos se juntam. Sabes o hino que eles cantam antes do apito e, se calhar, até sabes cantá-lo. Viste aquilo centenas de vezes — sempre do mesmo sítio, sempre através do mesmo ecrã, lá de casa, do outro lado do mundo.
Para ti, aquele estádio não é um lugar: é uma ideia. É onde acontecem as noites grandes, os jogos que não deixas escapar por nada, as histórias que depois contas e recontas. Construíste-o na cabeça a partir de imagens de televisão, e na tua cabeça ele é maior, mais luminoso, mais perfeito do que qualquer betão alguma vez poderia ser. É um templo que só existe de verdade quando o jogo começa.
O sonho de pisar aquele relvado
E há aquele pensamento que te aparece sempre, baixinho, a meio de um jogo: «um dia eu vou lá». Vais entrar por aquela porta, subir aqueles degraus, sentir o barulho a bater-te no peito em vez de sair de uma coluna. Vais ver com os teus olhos o verde do relvado, que na televisão nunca é bem a cor verdadeira. É um sonho pequeno, quase tímido, mas é teimoso — não te larga há anos.
E não faz mal que seja só um sonho. Há uma beleza própria em amar um lugar à distância, em pertencer a uma bancada onde nunca te sentaste, em fazer parte de uma festa que vês sempre pela janela do ecrã. O adepto que mora longe ama de uma maneira que o adepto do bairro ao lado nem sempre percebe: ama com a saudade de uma coisa que ainda não viveu.
Em Angola, muitos de nós crescemos assim — a amar estádios de cidades que nunca vamos visitar, equipas de países distantes, relvados que só pisamos em sonho. E, no entanto, aquele amor é tão verdadeiro como o de quem compra bilhete todas as semanas. Talvez mais, porque custa mais.
Guarda esse estádio na cabeça com carinho, e guarda o sonho de lá chegar. Talvez um dia pises aquele relvado e ele seja exatamente como imaginaste. Ou talvez nunca lá vás, e ele continue a ser teu à mesma — o templo perfeito que só existe quando acendes a televisão e o jogo começa.
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