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BANCADA
Crónica

O jogador que só tu defendias

Toda a gente o criticava. Era lento, falhava, não servia — diziam. E tu, contra o mundo, defendias-o em cada conversa. Não por seres cego: por veres nele qualquer coisa que os outros não quiseram ver.

Havia sempre um. Aquele jogador da tua equipa que toda a gente queria fora. Era lento, diziam. Falhava os fáceis. Não corria, não marcava, não servia para nada — e a esplanada inteira pedia a cabeça dele semana sim, semana sim. E tu, no meio de todos, eras o único que o defendia. Sozinho, teimoso, contra a razão e contra a estatística.

Não era cegueira. Tu também o vias falhar — não eras parvo. Mas vias outra coisa, uma coisa que os outros não quiseram ver. Via-se o esforço que ninguém contava, a entrada que salvou um golo e que não saiu no resumo, o gesto discreto que fazia o colega do lado jogar melhor. Ou, às vezes, não era sequer o jogo: era a forma como ele comemorava, a história dele, qualquer coisa que te lembrava alguém — ou que te lembrava a ti.

Defendê-lo era defender uma ideia

Porque defender o jogador impopular é defender uma ideia sobre o jogo, e sobre a vida. É dizer que nem tudo o que vale aparece na tabela. Que há gente que dá o que não se mede. Que o barulho da maioria nem sempre tem razão só por ser maioria. Tu defendias-o porque, no fundo, defendias a possibilidade de alguém valer mais do que parece — e isso diz mais sobre ti do que sobre ele.

E às vezes — nem sempre, mas às vezes — vinha o dia. O jogo em que o teu jogador, o rejeitado, decidia tudo. Marcava o golo, fazia a assistência, segurava o resultado com uma raça que calava a esplanada inteira. E nesse momento não havia vitória mais doce no mundo, porque não era só a equipa a ganhar — eras tu a ganhar uma discussão de meses, de uma vez só, sem precisares de dizer nada.

Com o tempo percebes que estes foram, muitas vezes, os teus jogadores preferidos. Não os craques óbvios, que toda a gente amava sem esforço. Mas os difíceis, os incompreendidos, os que precisaram de ti para alguém acreditar. Amar o fácil não custa. Amaste foi o difícil — e isso ficou.

Se ainda te lembras do nome dele, do jogador que só tu defendias, guarda-o com carinho. Provavelmente ninguém mais o guardou. E há uma nobreza pequena em ter sido, para alguém, o único que acreditou.

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