O relógio que para no minuto 88
A tua equipa ganha 1-0 e, de repente, o tempo deixa de andar. Cada minuto dura uma hora, cada bola na tua área é um ataque cardíaco. Nunca o relógio foi tão lento como quando mais querias que corresse.
Há uma lei da física que só o adepto conhece: quando a tua equipa ganha por 1-0 e entra o minuto 88, o tempo deixa de funcionar como deve ser. Os ponteiros emperram. Aquilo que durante 88 minutos passou a voar passa agora a arrastar-se, segundo a segundo, como se o relógio do estádio tivesse decidido torturar-te pessoalmente. Olhas para ele, não acreditas, voltas a olhar — e ainda é o mesmo minuto.
E o teu corpo trai-te. Deixas de ver o jogo e passas a ver só o perigo. Cada bola que se aproxima da tua área é uma ameaça de morte. Cada canto contra é o fim do mundo anunciado. Gritas para a tua equipa “manda lá para fora!”, “segura!”, “perde tempo!”, como se eles te ouvissem, como se a tua aflição ali no sofá pudesse ajudar a defender. Já não queres que o teu time jogue bem. Só queres que o árbitro apite.
O tempo mais longo da tua vida
É curioso: aquele 1-0 devia ser alegria, estás a ganhar. Mas o 1-0 não é alegria, é agonia pura. É o resultado mais cruel do futebol, porque é bom demais para arriscares perder e magro demais para te deixar descansar. Preferias, por momentos, estar a ganhar por três, só para o coração parar de bater assim. Mas não estás, e por isso sofres cada um daqueles segundos que não querem passar.
E então vem o pior: os minutos de compensação. O árbitro levanta a placa e tu procuras o número com um nó na garganta. Três? Só podes estar a brincar. Quatro? Isto é uma vingança pessoal. E cada um desses minutos extra é vivido de pé, com as mãos na cabeça, a implorar a um Deus de futebol que faça o apito chegar depressa.
Quando finalmente apita, o alívio não é alegria — é exaustão. Deixas-te cair, esvaziado, como quem acabou de correr os 90 minutos todos. Ganhaste 1-0, e sentes-te como se tivesses sobrevivido a alguma coisa. Porque, à tua maneira, sobreviveste.
Da próxima vez que o relógio parar no minuto 88, lembra-te: aquela agonia é a prova de que ainda te importas. O dia em que um 1-0 te deixar indiferente é o dia em que já não amas o jogo. Até lá, sofre — é o preço de quem ainda sente.
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