O teu primeiro golo
Não te lembras de quase nada da infância — mas lembras-te daquele. A bola a entrar, o barulho que não havia, os braços que abriste sem pensar. O teu primeiro golo ficou gravado para sempre, e não sabes bem porquê.
Há coisas da infância que se apagaram todas. Não te lembras do primeiro dia de escola, nem da cara de metade dos teus colegas, nem de quase nada do que te diziam ser importante. Mas lembras-te daquele golo. O primeiro. A bola a sair do teu pé, a viagem que pareceu durar uma vida, e depois a rede — ou os dois paus, ou as duas pedras, ou o que quer que fizesse de baliza naquele dia. Entrou. E tu soubeste, no corpo todo, que algo tinha mudado.
Não havia multidão, não havia narrador, não havia nada. Se calhar estavam lá três miúdos e um cão. Mas dentro de ti o estádio estava cheio, o rugido era ensurdecedor, e abriste os braços e corriste sem saber para onde — apenas correste, porque o corpo te mandou correr e celebrar, como se já soubesse de nascença o que se faz quando a bola entra. Ninguém te ensinou a comemorar. Já vinha contigo.
A primeira vez que o jogo foi teu
E aquele golo foi a primeira vez que o futebol deixou de ser uma coisa que vias e passou a ser uma coisa que fazias. Até ali, o jogo acontecia aos outros — na televisão, no estádio, aos grandes. Naquele instante, aconteceu-te a ti. Foste tu que marcaste, tu que fizeste a rede mexer, tu que provaste a ti mesmo que eras capaz. E nenhum golo que vires na vida, por mais bonito, te vai dar aquela sensação exata de descoberta.
Talvez nunca tenhas chegado a jogador. A maioria de nós não chegou. Os teus golos seguintes foram todos na terra batida, na pelada, no campo do bairro, longe de qualquer glória. Mas isso não interessa nada. O primeiro continua lá, intacto, guardado num canto da memória que o tempo não conseguiu gastar. É teu, só teu, e ninguém to pode tirar.
É curioso como o corpo escolhe o que guarda. Esqueceu nomes, datas, caras — e agarrou-se àquele segundo em que a bola entrou pela primeira vez. Talvez porque tenha sido a primeira vez que sentiste aquilo a que mais tarde chamarias alegria pura, sem mistura, sem culpa, sem contas.
Fecha os olhos e procura o teu primeiro golo. Ele ainda lá está. E se o encontrares, vais sorrir sozinho, sem saber bem porquê — que é exatamente como se sorri para as coisas que nos fizeram, sem nós sabermos, um bocadinho mais felizes para o resto da vida.
Mais crónicas
Recebe a próxima crónica no teu e-mail
O futebol do mundo contado do nosso lado — a maka, o orgulho, a voz. Uma vez por semana. Sem apostas, sem vender o teu e-mail.
