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BANCADA
Crónica

Quando a luz foi abaixo no melhor do jogo

Estava 1-1, bola na área, e o ecrã apagou-se de repente. A rua inteira gritou ao mesmo tempo, de janela em janela. Ficar sem luz no melhor do jogo é uma dor que só quem a viveu entende — e que, no fundo, nos juntava a todos.

Estava no melhor. Empate, minutos finais, a bola a rondar a área, o coração já na boca — e, de repente, escuro. O ecrã apagou-se com um estalo, a casa mergulhou no silêncio, e o teu cérebro demorou um segundo inteiro a perceber o que tinha acontecido. A luz foi abaixo. Ali, naquele preciso momento, como se alguém lá em cima tivesse um sentido de humor muito cruel.

E o mais extraordinário era o som que vinha logo a seguir. Não eras só tu a gritar. Era a rua inteira, o bairro todo, um coro de frustração a subir de cada janela ao mesmo tempo — “aaaah!” — porque toda a gente estava a ver o mesmo jogo e toda a gente ficou no escuro no mesmo segundo. Era quase bonito, se não fosse tão doloroso: a prova sonora de que estávamos todos juntos naquilo, agarrados ao mesmo jogo.

A aflição de não saber o resultado

E começava a aflição verdadeira: e agora, quem ganhou? Corrias para o telemóvel, se tinha bateria e se a rede ajudava. Gritavas para o vizinho que às vezes tinha gerador. Ligavas o rádio a pilhas à procura de alguém que ainda estivesse a transmitir. Qualquer coisa, qualquer fio que te ligasse de volta ao jogo que te roubaram no pior momento. Não saber o resultado era uma tortura pequena mas real.

Às vezes a luz voltava a tempo de apanhar o fim. Às vezes voltava já com o apito dado e o resultado feito, e ficavas a ver o resumo com aquela sensação estranha de teres perdido o momento ao vivo — de teres sido roubado da emoção, mesmo sabendo depois o que aconteceu. E às vezes não voltava de todo, e ias dormir sem saber, a adivinhar, com o jogo preso a meio dentro da cabeça.

Em Angola, isto não é uma história antiga — é terça-feira. A luz que se vai no pior momento faz parte de ver futebol tanto como o próprio jogo. E, no entanto, há ali uma coisa que nos une: aquele grito coletivo da rua, aquela solidariedade na escuridão, o vizinho que te grita o resultado da varanda. A luz foi-se, mas o bairro ficou.

Da próxima vez que a luz te roubar o melhor do jogo, abre a janela antes de praguejar. Ouve a rua inteira a reclamar contigo. Não estás sozinho no escuro — e isso, por mais pequeno que pareça, é uma forma de companhia que nenhum estádio luminoso te dá.

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