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BANCADA
Crónica

Ver o jogo pelo buraco da vedação

Não havia dinheiro para o bilhete, mas havia um buraco na vedação. Espreitavas por ali, de olho colado à chapa, a ver meio campo e a imaginar o resto. Era pouco — e, ao mesmo tempo, era tudo o que precisavas.

O bilhete custava o que tu não tinhas. Mas o estádio tinha uma vedação, e a vedação tinha um buraco — havia sempre um, descoberto por gerações de miúdos antes de ti, alargado com paciência, guardado como um segredo de família. E era por ali que tu entravas no jogo sem entrar no estádio: com o olho colado à chapa fria, a espreitar um pedaço de relvado, a ouvir o estádio inteiro que não podias ver.

Via-se mal, é verdade. Apanhavas meio campo, se tanto. O lance decisivo acontecia sempre do lado que o buraco não alcançava, e tinhas de adivinhar pelo barulho — pelo rugido que subia da bancada — se tinha sido golo, se tinha sido falhado, de quem tinha sido a festa. Ouvias o jogo mais do que o vias. E imaginavas o resto, preenchias com a cabeça o que os olhos não chegavam.

Pouco era tudo

E havia o perigo, que fazia parte da emoção. O segurança que aparecia de repente e vos punha a correr. A disputa pelo melhor ângulo do buraco, empurrões, “chega-te para lá”, “já estava eu aqui”. O medo de ser apanhado misturado com a adrenalina de estar a ver de graça aquilo que os outros pagaram. Era um jogo dentro do jogo, e tu jogavas os dois ao mesmo tempo.

Olha-se para trás e percebe-se que aquele pedacinho de relvado espreitado valia mais do que uma bancada inteira paga. Porque custava. Porque era proibido. Porque tinhas de o merecer, de o arrancar, de o roubar ao mundo que te dizia que aquilo não era para ti. E, ainda assim, lá estavas tu, de olho no buraco, a provar que o jogo era teu tanto como de quem tinha bilhete.

Em muitos bairros de Angola, foi assim que uma geração inteira aprendeu a amar o futebol: de fora para dentro, pelo buraco da vedação, a ver meio campo e a sonhar com o resto. O amor pelo jogo não nasceu nas cadeiras caras. Nasceu ali, agachado na chapa, com um olho só.

Se foste esse miúdo do buraco da vedação, não tenhas vergonha da memória — tem orgulho. Amaste o jogo quando ele ainda nem te deixava entrar. E esse amor, o que se conquista à força de espreitar, é o mais teimoso de todos.

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