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BANCADA
Crónica

A bola que foi para o telhado do vizinho

Um chuto a mais e lá ia ela, por cima do muro, para o quintal do senhor mal-encarado. O jogo parava. Começava a outra partida — a de convencer o mais corajoso a ir buscá-la. Metade da infância jogou-se assim.

Bastava um chuto entusiasmado a mais. A bola subia, subia, passava o muro — e o jogo parava a meio, em suspenso, com toda a gente a olhar para cima. Tinha ido parar ao quintal do vizinho. E não a qualquer vizinho: era sempre o do telhado alto, o do cão, o senhor mal-encarado que já tinha avisado mil vezes para não jogarem ali à frente.

Nesse instante acabava a partida de futebol e começava outra, bem mais tensa: a de decidir quem ia buscar. Formava-se o conselho ali no meio da rua, a discutir baixinho, cada um a arranjar uma desculpa. “Foste tu que chutaste.” “Mas a casa é mais perto da tua.” “Da última vez fui eu.” E o mais corajoso — ou o mais tolo, que muitas vezes era a mesma coisa — lá ia, a contragosto, cumprir a missão em nome de todos.

A operação de resgate

E era uma operação a sério. Tocar à campainha e pedir com jeitinho, arriscando o sermão. Ou, nos casos mais desesperados, saltar o muro à socapa, com um vigia em cada esquina a avisar se o senhor aparecia. O coração aos saltos, o cão a ladrar, a bola ali tão perto e tão impossível. E quando o herói voltava com ela debaixo do braço, são e salvo, era recebido como quem volta de uma guerra. O jogo recomeçava. Até ao próximo chuto a mais.

Havia ali uma escola que nenhuma escola dava. Aprendia-se a negociar, a arriscar por um bem comum, a enfrentar o adulto zangado, a repartir a culpa e a coragem. E aprendia-se, sobretudo, o valor da bola — porque quando ela custava uma expedição ao território inimigo, ninguém a chutava com displicência. Cada bola resgatada valia o dobro.

Hoje, com campos fechados e relvados pagos, a bola já não vai parar a telhado nenhum. Ganhou-se em conforto e perdeu-se aquela aventura pequena, a adrenalina de recuperar o que o próprio pé mandou para longe. Metade da infância de muita gente jogou-se não no campo, mas na negociação tensa de quem ia buscar a bola ao quintal proibido.

Se ainda te lembras do nome do vizinho mal-encarado do telhado alto, sorri. Sem o saber, ele fez parte dos teus melhores jogos. Era o adversário mais temido de todos — e o único que nunca chegou a entrar em campo.

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