A camisola que herdaste do teu irmão mais velho
Chegou-te já gasta, grande demais, com o cheiro dele ainda lá. Não era nova, não era tua de início — mas foi a camisola mais importante que vestiste, porque vinha carregada de tudo o que o teu irmão foi antes de ti.
A camisola não chegou nova. Chegou já vivida — com a cor um bocadinho lavada, o emblema a começar a descolar, uma ou outra marca de relva que nunca mais saiu. Era do teu irmão mais velho, e passou a ser tua no dia em que ele cresceu e ela já não lhe servia. Vestiste-a grande demais, com as mangas a passar dos cotovelos e a barra a dar-te quase pelos joelhos, e mesmo assim foste o miúdo mais orgulhoso do mundo.
Porque aquela camisola não era só pano. Era a camisola com que o viste jogar na rua, a camisola das tardes em que ele te deixava ir atrás dele e dos amigos, a camisola de quem tu querias ser quando fosses grande. Herdá-la era herdar um pouco dele — da forma como corria, da maneira como festejava, do lugar que ele ocupava no mundo e que tu, agora, tentavas ocupar também, mangas enroladas e tudo.
Crescer para dentro dela
E havia a promessa silenciosa de que um dia ela te ficaria bem. Vestias-a grande e esperavas, sem pressa, pelo dia em que o teu corpo a enchesse como o dele a tinha enchido. Era um alvo, uma medida de crescer: “quando esta camisola me servir”. E ias-te medindo nela, ano após ano, a ver as mangas a chegarem-te finalmente ao pulso, a barra a subir para o sítio certo. Crescias para dentro dela — e, sem dar conta, crescias também para dentro do lugar do teu irmão.
Em muitas casas de Angola, o futebol passou assim de irmão para irmão: uma camisola só, herdada pela ordem da idade, gasta por três ou quatro antes de ir finalmente descansar. Não havia uma para cada. Havia a que calhava, e calhava a quem vinha a seguir. E essa economia de pano, longe de empobrecer a coisa, enchia-a de significado — cada camisola carregava a memória de todos os que a vestiram antes.
Hoje, se calhar, já podes comprar a camisola que quiseres, nova, do teu tamanho, com o teu nome atrás. Mas nenhuma delas te vai fazer sentir o que sentiste com aquela grande demais, ainda com o cheiro do teu irmão, a prometer-te que um dia serias do tamanho dele.
Se ainda tens um irmão mais velho de quem herdaste uma camisola, diz-lhe. Ele provavelmente nem sabe o que aquilo significou para ti — e há coisas que merecem ser ditas antes que fiquem só na memória.
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