A liga de tampinhas que montaste no chão da sala
Cada tampinha era um craque, o chão era San Siro, e tu eras o treinador, o árbitro e o campeonato inteiro. Antes de teres um clube, já tinhas uma liga — com tabela, golos e injustiças — toda feita de tampas de garrafa.
Antes de teres um clube, já tinhas uma liga inteira. Montavas-te no chão da sala, ou no cimento do quintal, e abrias a caixa das tampinhas como quem abre o plantel mais caro do mundo. Cada tampa era um jogador. A amassada era o defesa duro; a que corria mais lisa, o avançado; a especial, a que ninguém trocava, era o craque — tinha nome, história e um estatuto que só tu reconhecias.
O campo era onde calhasse. As juntas das lajes faziam de linhas, dois chinelos de balizas, e uma tampa mais pequena fazia de bola. Dava-se o piparo com o dedo, com aquela técnica que levava anos a afinar — força a mais e o craque voava para debaixo do sofá; força a menos e não saía do sítio. E ninguém te ensinou: aprendeste sozinho, a chutar tampas, a física toda que a escola só explicou muito mais tarde.
Eras o campeonato inteiro
E o mais bonito é que eras tudo ao mesmo tempo. Eras os dois treinadores, e por isso nunca perdias de verdade. Eras o árbitro, e apitavas sempre a teu favor sem te sentires culpado. Eras o locutor, a narrar o golo em voz alta para uma bancada que só existia na tua cabeça. E eras o campeonato: tinhas tabela escrita num caderno, golos apontados, uma época inteira com subidas e descidas que só tu conhecias.
Havia injustiças, e eram deliciosas. A tampa que tu querias que ganhasse ganhava sempre; a do teu irmão, por mais que ele reclamasse, tinha um azar estranho nos momentos decisivos. Discutia-se, chorava-se, revirava-se o campo com um pontapé de fúria quando a coisa não ia a teu jeito. E dez minutos depois estava tudo a recomeçar, porque aquela liga não acabava — só fazia intervalo até ao dia seguinte.
Um dia as tampinhas ficaram na caixa, a caixa foi parar a uma gaveta, e a gaveta esqueceu-se. Ganhaste um clube a sério, um campeonato a sério, craques que não cabem na palma da mão. Mas nenhum deles foi tão teu como aquelas tampas de garrafa a que davas nome e vida no chão da sala.
Se ainda tens uma caixa dessas em casa de alguém, não a deites fora. É o teu primeiro plantel, a tua primeira liga, o teu primeiro amor pelo jogo — tudo guardado em metal amassado. Valia mais do que qualquer cromo.
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