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BANCADA
Crónica

A superstição que fazes sem admitir

A mesma cadeira. A mesma camisola por lavar. Entrar no minuto certo, não falar do resultado antes do apito. Sabes que não muda nada — e mesmo assim não falhas uma, porque no dia em que falhaste, perdeu-se.

Ninguém confessa, mas toda a gente faz. A superstição do adepto é o segredo mais mal guardado do futebol. Sentas-te sempre na mesma cadeira. Vestes a camisola que trouxe sorte da última vez, mesmo por lavar, mesmo já a cheirar a azar. Chegas à sala exatamente no minuto certo, nem antes nem depois. E juras a ti próprio que não acreditas nisto — enquanto o cumpres à risca.

A pior de todas é a lei do silêncio. Não se diz “isto já está ganho” antes do apito. Não se conta a vitória antes de ela estar fechada. Há quem se recuse a ver os últimos minutos, quem saia da sala, quem finja indiferença de propósito, porque alguém, algures, decidiu que mostrar confiança a mais dava azar. E tu cumpres, mesmo achando ridículo, porque o risco de não cumprir é grande demais.

Sabes que não muda nada. E não falhas uma

A cabeça sabe a verdade: a tua cadeira não marca golos, a tua camisola não defende penáltis, o teu silêncio não tira a bola da linha. Onze homens a centenas de quilómetros não fazem a mínima ideia de onde estás sentado. Racionalmente, é tudo teatro. E mesmo assim, no dia em que quebraste o ritual e a equipa perdeu, uma vozinha dentro de ti sussurrou: “foste tu”. E nunca mais arriscaste.

Porque a superstição não é sobre controlar o jogo. É sobre suportar não o controlar. Ali sentado, sem poder fazer absolutamente nada pelo resultado, agarras-te ao pouco que está ao teu alcance: a cadeira, a camisola, o silêncio. Dão-te a ilusão de que participas, de que fazes a tua parte. É o gesto de quem ama sem poder ajudar, e precisa de sentir que ajuda na mesma.

Por isso não tenhas vergonha do teu ritual parvo. Faz-lo porque te importas ao ponto de tentar o impossível — influenciar de longe uma coisa que não depende de ti. É irracional, é inútil, e é das provas mais bonitas de que aquilo te corre no sangue.

Agora vai buscar a camisola da sorte. Já sabes que não muda nada. Veste-a na mesma. Nunca se sabe — e, mais importante, tu nunca vais querer saber.

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