As Palancas Negras: o orgulho que teima em não morrer
Podemos passar o ano a discutir o Real e o Barça, mas basta a seleção entrar em campo para tudo parar. As Palancas Negras não dão os títulos que sonhamos — dão outra coisa, que nenhum clube da Europa consegue dar.
Passamos o ano de camisola de clubes que ficam a dez mil quilómetros. Discutimos treinadores que nunca nos vão ouvir, defendemos cores que herdámos da televisão. E depois há aquele dia — a seleção entra em campo — e, de repente, tudo o resto encolhe. É como se meia rua tivesse combinado calar-se ao mesmo tempo.
As Palancas Negras não nos dão o que os gigantes da Europa dão. Não há uma Champions à espera, não há uma máquina de títulos, não há aquela certeza de que para o ano se ganha outra vez. O que elas dão é outra coisa, e é uma coisa que nenhum clube do mundo consegue dar: quando marcam, marca Angola. Não uma cidade, não uma marca, não um dono estrangeiro. O país inteiro, ao mesmo tempo.
Porque é que ainda dói e ainda importa
Porque é o único futebol em que a camisola somos mesmo nós. Podes trocar de clube — muita gente troca. Não trocas de país. Quando a seleção sofre, sofremos como família, não como adeptos. E é por isso que uma qualificação falhada dói de uma maneira que a derrota do Barça nunca vai doer: no clube, perdeu a equipa; na seleção, perdemos nós.
Houve tempos maiores — houve um Mundial, houve gerações que puseram o nome de Angola em sítios onde ninguém esperava. E há de haver outra vez, porque o talento cá não falta e nunca faltou; falta, às vezes, tudo o resto à volta dele. Mas o orgulho, esse, teima. Não morre com uma derrota nem com um ano mau. Fica adormecido e acorda inteiro ao primeiro apito.
Por isso, sim, sê do Benfica, sê do Barça, perde o sono pela Champions. Mas guarda um canto do peito para as Palancas. É o único sítio do futebol onde não estás a torcer por eles. Estás a torcer por ti.
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