Champions à meia-noite: porque perdemos o sono por um jogo que não é nosso
Há noite de Champions e amanhã há trabalho. Mesmo assim ficamos acordados, com o telemóvel no escuro e o volume no mínimo para não acordar a casa. Não é vício. É outra coisa — e vale a pena dizer o nome.
É terça-feira. Amanhã há trabalho, há escola, há candongueiro às seis. E mesmo assim lá estás tu, à meia-noite, com o telemóvel no escuro e o volume no mínimo para não acordar a casa, a ver um jogo entre duas equipas de países que nunca pisaste.
Alguém de fora chamaria a isto vício. Está enganado. Vício é o que se faz sozinho e às escondidas com vergonha. Isto faz-se com o grupo a arder, com o vizinho a mandar áudio a gritar, com meia cidade acordada ao mesmo tempo pela mesma razão. Não é fuga. É encontro.
O que é que se compra com uma noite mal dormida
Compra-se pertencer. À meia-noite, aquele jogo não está a acontecer em Londres nem em Madrid — está a acontecer em Luanda, no Lubango, no Huambo, em cada sala onde alguém decidiu que valia a pena. A Champions não é a competição deles que nós vemos. É a única coisa do mundo grande a que temos acesso ao mesmo tempo que o mundo grande. Não chega atrasada, não chega traduzida, não chega em segunda mão. Chega ao vivo, e nós estamos lá.
Por isso é que a hora não interessa. Um golo aos noventa não sabe que amanhã tens de acordar cedo, e tu, naquele momento, também não queres saber. Levantas-te, gritas baixo para não acordar o miúdo, e mandas o áudio antes de te sentares outra vez. Amanhã pagas com sono. Vale sempre a pena.
Há quem colecione noites assim a vida inteira e não troque uma. A final que se viu em pé. O jogo que virou nos descontos. A eliminatória que se sofreu até ao fim. Não é o resultado que fica — é a noite. E a noite, essa, é nossa, por mais que a bola seja deles.
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