O grupo de WhatsApp da equipa que já não joga
Criaram-no para combinar a peladinha de domingo. A peladinha acabou há anos — os joelhos, os filhos, a vida — mas o grupo continua vivo. Já não marca jogos. Marca uma amizade que só o futebol saberia manter junta.
Aquele grupo de WhatsApp começou com uma função só: combinar a peladinha de domingo. Quem levava a bola, quem arranjava o campo, quem estava dentro, quem furou à última. Mensagens práticas, secas, de gente que se ia ver dali a pouco na relva.
A peladinha acabou há anos. Não houve uma decisão, um último jogo, um adeus. Foi-se apagando. Primeiro faltou um por causa do joelho, depois outro porque nasceu o filho, depois a vida foi entrando pelo domingo adentro até não sobrar campo nem hora. Um dia, simplesmente, ninguém marcou. E nunca mais se marcou.
Ficou o grupo, que é o que importava
Mas o grupo não morreu. Mudou de função. Já não combina jogos — agora manda os bons-dias, as fotos dos filhos que já dão para a bola, as piadas de sempre repetidas pela milésima vez, a mensagem quando um deles passa por um mau bocado. De vez em quando alguém escreve “e se voltássemos a jogar?”, toda a gente reage com entusiasmo, ninguém marca nada, e está tudo bem assim. A intenção já chega.
Repara no que ali aconteceu. O futebol foi a desculpa para juntar aqueles homens. Sem a peladinha, muitos deles nunca teriam sido amigos — vidas diferentes, bairros diferentes, nada em comum a não ser uma bola ao domingo. E quando a bola desapareceu, o que ela tinha construído por baixo ficou de pé sozinho. A amizade já não precisava do futebol. Mas nunca teria existido sem ele.
É essa a magia discreta da peladinha. Ninguém entra num campo de terra a pensar “vou fazer amigos para a vida”. Vai-se lá para correr atrás de uma bola. E anos depois descobre-se que se ganhou muito mais do que os jogos que se perdeu — ganhou-se um grupo que resiste aos joelhos, aos filhos e à vida.
Se tens um grupo desses, calado há semanas mas ainda de pé, escreve lá qualquer coisa hoje. Nem precisa de ser sobre bola. Aquele grupo já há muito que deixou de ser sobre bola. É sobre não se largarem — e o futebol foi só quem os apresentou.
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