O guarda-redes, o mais solitário do campo
Ninguém queria ser. Ficava para o último a escolher, o mais gordo, o que corria menos, o que chegou atrasado. E era o mais corajoso de todos — porque escolhia o lugar onde o erro não se esconde e a culpa fica sempre com um só.
Na peladinha, ninguém queria ser guarda-redes. Era o lugar do castigo. Ficava para ele o último a ser escolhido, o mais gordo, o que corria menos, o que chegou atrasado e não teve escolha. Metiam-no à baliza como quem cumpre uma pena, e ele lá ficava, sozinho, a olhar o jogo acontecer longe, a rezar para que a bola não viesse — e a saber que, se viesse, a culpa ia ser toda dele.
Porque essa é a crueldade da posição. No resto do campo, o erro dilui-se. O avançado falha dez e ninguém conta; marca um e é herói. O guarda-redes faz vinte defesas perfeitas, que ninguém aplaude porque era a obrigação, e falha uma — uma só — e é essa que fica, que se repete, que lhe põem na cara para o resto da época. Defender bem é invisível. Falhar é para sempre.
Escolhe o lugar onde não há onde esconder
E no entanto há uma coragem enorme em aceitar aquele posto. É preciso um tipo especial de pessoa para ficar de propósito no lugar onde o erro não se esconde, onde a culpa nunca se reparte, onde se está sempre a um segundo da humilhação em frente a toda a gente. O guarda-redes não corre atrás da glória fácil. Fica quieto a guardar o que os outros deixam passar, e carrega sozinho o peso de todas as distrações alheias.
Repara que é a posição mais parecida com a vida adulta. Passas o tempo a fazer bem coisas que ninguém nota, porque era a tua obrigação, e basta um deslize para toda a gente reparar. Aguentas a pressão sozinho, no fundo da tua baliza, sem ninguém a dividir a responsabilidade contigo. Quem foi guarda-redes em miúdo aprendeu cedo uma coisa que os outros só aprenderam tarde: que há posições na vida em que só se ganha por não se perder.
Por isso, da próxima vez que um guarda-redes falhar e o campo inteiro cair em cima dele, guarda um bocadinho de piedade. Ele escolheu, ou aceitou, ficar no lugar mais ingrato do jogo. Fez as defesas que ninguém contou. E naquele momento sozinho, com a bola no fundo das redes e mil olhos em cima, está a pagar por uma coragem que quase ninguém teve.
O jogo lembra-se sempre de quem marca. Devia lembrar-se também de quem ficou lá atrás, sozinho, a segurar o que podia. Esses raramente têm festa. Mas sem eles não há jogo que se aguente de pé.
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