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BANCADA
Crónica

O jogador que odiavas e acabaste a respeitar

Havia sempre um. O do outro clube que te tirava o sono, que festejava a olhar para a tua bancada, que parecia existir só para te chatear. E depois, anos mais tarde, deste por ti a sentir falta dele. O futebol faz isto.

Havia sempre um. O jogador do outro lado que te tirava o sono. Que marcava sempre à tua equipa, que festejava a olhar para a tua bancada, que reclamava, provocava, caía como se lhe tivessem partido a perna e levantava-se a rir. Parecia existir com um único propósito no mundo: chatear-te a ti. E odiavas — com aquele ódio saudável e ridículo que só o futebol permite ter por um desconhecido.

Chamavas-lhe nomes. Rezavas para que falhasse. Quando ele errava um penálti, era feriado em tua casa. Era o vilão perfeito da tua história, e um bom vilão vale quase tanto como um herói — dá sentido à luta, dá sabor à vitória, dá a quem torce alguém em quem despejar toda a paixão que não cabe no amor pela própria equipa.

E depois muda qualquer coisa

Anos mais tarde, ele começa a envelhecer. Já não marca à tua equipa com a mesma facilidade. Um dia despede-se, num último jogo, e a câmara fecha nele a chorar. E tu, que passaste uma década a detestá-lo, sentes um aperto estranho no peito. Porque percebes, tarde demais, que aquele homem fez parte da tua vida. Que sem ele a rivalidade não teria tido a mesma graça. Que o respeitavas sem saber.

É uma das lições mais bonitas que o futebol dá em silêncio: que o adversário não é o inimigo. É o parceiro da tua história do outro lado da linha. Sem um grande rival, não há grandes noites. O jogador que odiavas foi, afinal, um dos que te deu mais emoção — só que do avesso.

Por isso, da próxima vez que um craque do clube rival te tirar do sério, guarda um bocadinho de apreço no meio da fúria. Um dia ele reforma-se, e tu vais dar por ti a contar aos mais novos como era difícil, como era bom detestá-lo. O respeito, no futebol, quase sempre chega atrasado. Mas chega.

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