O jogo que viste sozinho, longe de casa
Emigraste, e levaste o clube contigo. Mas ver o jogo num país que não é o teu, de madrugada, sozinho, sem ninguém à volta que se importe — é aí que percebes que o futebol nunca foi só futebol. Era casa.
Levaste pouca coisa quando partiste. Uma mala, uns documentos, e o clube — esse veio sempre contigo, não ocupava espaço na bagagem. Achavas que ver o jogo lá fora ia ser igual: é a mesma equipa, a mesma cor, a mesma emoção. E é, e não é. Porque há uma diferença enorme entre ver o teu clube em casa e vê-lo sozinho, de madrugada, num país onde ninguém sabe sequer que ele existe.
Acordas a horas estranhas por causa do fuso. Procuras um sinal, um site qualquer, uma transmissão que apanhe o jogo àquela hora impossível. E vês, sozinho, num quarto emprestado, com o som baixo para não incomodar. Marcas um golo e festejas sozinho, com o punho fechado no silêncio, sem ninguém para abraçar, sem a rua a explodir lá fora. A alegria fica ali presa, sem eco.
Não era o jogo. Era a casa
E é aí, longe, que percebes o que o futebol sempre foi para ti. Não era o jogo. Era o pretexto para estar entre os teus. Era a esplanada, a maka com os amigos, a voz da tua mãe a chamar para a mesa no intervalo, o candongueiro cheio de gente a comentar. Tudo isso ficou do outro lado do mundo, e o que te chega agora é só a bola — e a bola sozinha, descobres, é bem mais pequena do que parecia.
Mas há uma coisa que a distância também faz, e é bonita. Aquele clube, aquela cor, passam a ser o teu pedaço de casa mais portátil. Nos dias em que a saudade aperta e o país estranho pesa, ligas o jogo e, por noventa minutos, estás outra vez lá. A camisola cheira a casa. O hino sabe a casa. Vês o teu estádio na televisão e por um instante não estás emigrado — estás em casa, sentado no teu lugar, como sempre estiveste.
Por isso não deixes de ver, mesmo sozinho, mesmo de madrugada, mesmo sem ninguém que se importe à tua volta. Aquele jogo é a linha mais fina que te liga ao sítio de onde vieste. E enquanto a mantiveres, por mais longe que estejas, uma parte de ti nunca chegou a partir.
E quando voltares — que a gente sempre planeia voltar — a primeira coisa vai ser essa: ver um jogo com os teus, em voz alta, sem o som baixo, sem festejar sozinho. Vais perceber, nesse dia, o que andaste este tempo todo a guardar do outro lado do mundo.
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