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BANCADA
Crónica

O miúdo escolhido em último

Dois capitães escolhiam à vez, e tu ficavas a olhar os nomes a saírem — menos o teu. Ser o último a ser escolhido na pelada ensina uma coisa dura cedo demais: que às vezes és tu o que sobra. E tens de jogar na mesma.

Havia um ritual antes de cada pelada, e era o mais cruel de todos. Dois escolhiam-se capitães — os melhores, os donos da bola, os mais velhos — e punham-se a tirar a sorte de quem começava. Depois vinha a escolha, um a um, à vez. “Quero o fulano.” “Então eu o sicrano.” E os nomes iam saindo, os melhores primeiro, e o grupo ia encolhendo, e tu continuavas ali, de pé, à espera de ouvir o teu.

E, para alguns de nós, o nome demorava. Via-se os bons a serem levados depressa, os médios a seguir, e o grupo a ficar pequeno — e tu ainda ali. Começavas a fazer contas: faltam cinco, faltam três, falta só eu e mais um. E o pior não era ser escolhido em último. O pior era o momento em que já não te escolhiam — em que o capitão olhava para os dois que sobravam e dizia, sem entusiasmo nenhum, “fica com aquele”, e o aquele eras tu.

Às vezes és tu o que sobra

É uma lição dura para a idade em que chega. Aprendes cedo, no chão de um campo de terra, que nem sempre és o primeiro a ser querido. Que há sítios onde entras por último. Que às vezes és tu o que sobra, o que calha, o que ninguém disputou. E tens de engolir aquilo em frente a toda a gente, com a cara a arder, e entrar em campo na mesma como se não doesse.

Mas há uma coisa que o miúdo escolhido em último aprende e que os craques da escolha nunca aprendem: aprende a provar-se. Entra em campo com uma raiva pequena e boa, com vontade de mostrar que erraram, de meter o golo que faça o capitão arrepender-se. Não joga por glória — joga para pertencer. E não há fome maior no futebol do que a de quem quer provar que merecia ter sido escolhido mais cedo.

Com o tempo percebes que a vida está cheia de escolhas dessas, e que nem todas são sobre futebol. Haverá sempre salas onde entras por último, mesas onde calhaste e não foste querido. E a pelada preparou-te para isso: ensinou-te a entrar na mesma, a jogar na mesma, a provar na mesma.

Se foste esse miúdo, não guardes a mágoa — guarda a fome. Essa fome de quem teve de provar valeu-te mais, ao longo da vida, do que todo o talento fácil de quem era sempre escolhido primeiro. O último a ser chamado foi, muitas vezes, o que mais longe chegou.

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