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BANCADA
Crónica

O penálti em que pediste a Deus

Não és de rezar por futebol — e mesmo assim, naquele penálti, deste por ti a pedir. Como se Deus parasse o mundo para ver a tua equipa marcar. Não é sobre fé. É sobre o quanto aquilo te importava.

Tu sabes que não se deve. Que Deus, se existe e se olha para o mundo, tem coisas maiores para resolver do que o teu penálti aos 89 minutos. Sabes que é tolice, que é egoísmo, que do outro lado há outro adepto a pedir exatamente o contrário. Sabes tudo isso — e mesmo assim, quando a bola foi para a marca e o teu jogador se preparou, deste por ti a pedir. Baixinho, por dentro, sem admitir a ninguém: «deixa entrar, por favor, só esta».

Não é bem rezar. É outra coisa, mais antiga e mais funda. É o reconhecimento de que, naquele segundo, tu não tens controlo nenhum. Fizeste tudo o que podias — torceste, sofreste, cumpriste as superstições todas — e agora a coisa está completamente fora das tuas mãos, dependente de um colega que nem te conhece. E quando não há mais nada a fazer, o ser humano vira-se para cima. Pede. Mesmo quem não acredita, pede.

Não é sobre fé. É sobre o quanto importa

Repara que não pedes isto por quase mais nada na vida com a mesma intensidade. Há coisas sérias — a saúde de quem amas, um exame, um trabalho — e por essas também pedes, claro. Mas há uma pureza estranha no pedido do penálti: é inútil, é sobre um jogo, não muda nada de importante, e ainda assim sai de um sítio verdadeiro lá dentro. Talvez seja por isso mesmo que sai tão fácil — porque é sobre algo que amas sem razão, e amar sem razão é a coisa mais humana que há.

Em Angola, então, o futebol e o pedido andam de mãos dadas. Levanta-se o olhar, fecha-se o punho, murmura-se qualquer coisa que é meia reza, meia promessa, meia ameaça ao universo. E quando a bola entra, o agradecimento é tão sincero como se fosse um milagre a sério — porque, por um segundo, foi.

E quando não entra? Baixas a cabeça, engoles, e uma parte de ti sente-se tola por ter pedido. Mas não te envergonhes. Esse pedido não era sobre ganhar. Era a prova, em forma de oração desajeitada, de que aquilo te corre no sangue ao ponto de recorreres ao céu por uma bola.

Da próxima vez que te apanhares a pedir num penálti, sorri por dentro. Não estás a ser ridículo. Estás só a amar uma coisa com toda a força — e a confessá-lo da única maneira que resta quando já não há nada a fazer senão esperar.

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