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BANCADA
Crónica

O primeiro jogo que viste com o teu pai

Não te lembras do resultado. Lembras-te da mão dele no teu ombro, do cheiro, do grito que ele deu e que te assustou e encantou ao mesmo tempo. O futebol, para muitos de nós, começou assim: como uma herança entregue em silêncio.

Provavelmente não te lembras do resultado. Nem de quem jogou, nem de quem marcou. Mas lembras-te da mão dele no teu ombro. Do cheiro daquele momento. Do grito que ele deu quando a bola entrou — um grito que te assustou e te encantou ao mesmo tempo, porque nunca tinhas visto o teu pai assim, miúdo como tu de repente.

O futebol, para muitos de nós, começou assim. Não numa aula, não num livro. Numa herança entregue em silêncio, ao lado de um homem que raramente falava de sentimentos mas que, naquele sofá, deixava tudo à mostra. Era ali que ele te dizia, sem dizer, quem era o clube da família. E tu aceitavas, porque vinha dele.

O que se passava mesmo ali

Não era só um jogo. Era o teu pai a partilhar contigo a coisa que o fazia feliz de uma maneira que o trabalho e a vida não faziam. Durante noventa minutos, não havia distância entre vocês — havia uma equipa, uma camisola, um inimigo comum do outro lado. E tu, sem saber, estavas a ser iniciado. A entrar num clube que não tem cartão de sócio: o dos que amam a bola por causa de quem lha mostrou primeiro.

Há quem já não tenha o pai por perto para ver o jogo. E, no entanto, cada vez que a equipa marca, aquele grito volta — o dele, agora na tua garganta. Herdaste mais do que um clube: herdaste a maneira de festejar, a superstição de sempre, a frase que ele dizia quando o árbitro apitava mal. O futebol tornou-se a língua secreta entre vocês, e essa língua não morre.

Por isso, se ainda o tens, chama-o para o próximo jogo grande. Desliga o telemóvel, senta-te ao lado dele, e vê. Não pelo resultado — esse esqueces. Pelo momento, que é a única coisa que fica. Um dia serás tu a pôr a mão no ombro de alguém, e a passar a herança adiante, em silêncio, como te foi passada a ti.

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