O sinal que caía sempre no golo
A imagem congelava, a chuva comia o sinal, a antena precisava de um jeito de mão — e era sempre, sempre, no momento em que a bola ia entrar. Quem viveu isso festejou golos que nunca chegou a ver.
Há uma geração inteira que festejou golos que nunca chegou a ver. A bola ia a caminho, a defesa aberta, o guarda-redes batido — e a imagem congelava. Ficava ali, presa, um quadrado partido em mil, enquanto lá fora a rua explodia e tu ainda não sabias de quê.
O sinal tinha um sentido de humor cruel. Aguentava o jogo inteiro parado, o meio-campo sem graça, o passe para trás. Mas assim que a coisa aquecia, assim que o coração subia, era como se soubesse — e caía. A chuva era a pior inimiga. Bastava o céu carregar para o ecrã encher de formigas e o comentador desaparecer no meio de um assobio.
A antena tinha manha
Cada casa tinha o seu remédio, e todos eram meio bruxaria. Havia a antena que só funcionava com alguém a segurá-la num ângulo exato, de pé, sem se mexer, mártir da sala. Havia o pau que se enfiava para prender o fio na posição certa. Havia a pancada seca no lado da televisão, aquela palmada que os mais velhos davam com fé, como quem acorda um teimoso. E, às vezes, resultava — voltava a imagem mesmo a tempo de veres a repetição do golo que tinhas perdido ao vivo.
Aprendeste a ver futebol pelos ouvidos. Pelo barulho do vizinho antes da tua imagem voltar. Pelo grito que atravessava o quarteirão e te dizia o resultado sem uma palavra. Ficaste perito em ler a rua: aquele silêncio era golo sofrido, aquela onda era golo marcado, e não precisavas de ecrã nenhum para saber de que lado tinha caído.
Agora a imagem não cai. Está lá sempre, limpa, nítida, à espera. E é melhor assim, claro que é. Mas há uma coisa pequena que se perdeu com a nitidez: a fé. Aquela fé de dar uma pancada na televisão e acreditar que ia voltar. Aquele suspense a mais, oferecido de graça pela antena, que fazia de cada golo uma coisa duas vezes conquistada — primeiro pela equipa, depois por ti, que lutaste com o sinal para o ver.
Se ainda te lembras da posição exata em que a antena funcionava, guarda essa memória. É de um tempo em que ver o jogo já era, por si só, um pequeno campeonato.
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