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BANCADA
Crónica

O treinador de bancada: em Angola somos todos seleccionadores

Ninguém em Angola acha que o treinador sabe mais do que ele. A escalação certa, a substituição errada, o sistema que devia ser outro — está tudo resolvido na esplanada, dez minutos antes do apito.

Há uma verdade universal que em Angola é lei: ninguém acha que o treinador sabe mais do que ele. Podes não saber o nome de metade do plantel, podes nunca ter dado um toque na bola a sério — não interessa. Quando o jogo começa, tornas-te seleccionador nacional, e a tua escalação é sempre melhor do que a que está em campo.

Repara no ritual. Faltam dez minutos para o apito e a esplanada já resolveu tudo. “Aquele avançado não devia jogar.” “O sistema está errado.” “Se fosse eu, tirava o número 8 e metia velocidade.” E quando a equipa perde, a frase é sempre a mesma, dita com a certeza de quem viu o futuro: “eu bem disse”.

Porque é que fazemos isto

Porque discutir futebol, cá, não é sobre ter razão — é sobre participar. O treinador de bancada não quer mesmo o lugar do outro; quer é fazer parte do jogo sem estar no relvado. Cada palpite é uma forma de entrar em campo. Cada crítica é um bilhete para dentro de uma coisa grande que se passa longe.

E há a parte gloriosa: quando acertamos. Quando dizes “isto vai dar golo” e dá, quando previste a substituição que virou o jogo, ganhas o direito de o repetir a semana inteira. Um treinador de bancada vive daquele momento raro em que o futebol lhe deu razão à frente de testemunhas.

Por isso, sim, continua a gritar para o ecrã. Continua a tirar o avançado que não corre e a meter o miúdo que ninguém conhece. Está toda a gente a fazer o mesmo, em cada esplanada do país, ao mesmo tempo. É o campeonato paralelo que ninguém organiza e onde somos todos, sem excepção, o melhor treinador de sempre.

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