Quando puxas pelo mais fraco só porque é o mais fraco
Não é o teu clube. Não ganhas nada com isso. Mas ali estás tu, num jogo que não te dizia respeito, a torcer pelo pequeno contra o gigante — porque há algo em nós que não suporta ver a vitória combinada de antemão.
Acontece-te em jogos que não te dizem respeito nenhum. Nem é o teu clube, nem é a tua liga, nem ganhas o que quer que seja com o resultado. Estás a ver por acaso — e de repente dás por ti a puxar pelo mais pequeno, com uma força que nem os teus próprios jogos te tiram. O gigante contra o zé-ninguém, e tu, sem saber bem porquê, do lado do zé-ninguém.
É quase involuntário. Há uma coisa dentro de nós que não suporta ver a vitória decidida de antemão. Quando o resultado está escrito antes do apito — o rico contra o pobre, o de sempre contra o nunca — algo se revolta. Não queremos justiça no sentido de os melhores ganharem. Queremos a possibilidade, a hipótese, o milagre de uma tarde. Queremos que, por uma vez, a bola não obedeça ao dinheiro.
Não é sobre futebol, é sobre nós
Porque todos nos revemos no mais fraco em qualquer coisa. Toda a gente já foi o pequeno numa mesa de grandes, o que não era favorito, o que ninguém contava. E quando um clube humilde segura o empate contra um gigante até aos últimos minutos, não estamos só a ver futebol — estamos a torcer por uma ideia. A ideia de que o esforço às vezes chega, de que o menos favorito às vezes consegue, de que nem tudo está comprado.
Claro que na maioria das vezes o gigante acaba por ganhar. O dinheiro, a fundo, quase sempre ganha — no futebol como fora dele. Mas nas raras tardes em que não ganha, em que o pequeno aguenta, em que o golo entra do lado errado do favoritismo, o mundo inteiro que estava a ver por acaso levanta-se ao mesmo tempo. E não é pelo clube. É por todos os pequenos, em todo o lado, que raramente têm a sua tarde.
Repara nisto: o dia em que deixares de puxar pelo mais fraco é o dia em que já não acreditas que o improvável acontece. E um adepto que já não acredita no improvável está a ver o desporto errado — porque é exatamente para isso que o futebol serve.
Por isso, da próxima vez que apanhares um David contra um Golias num ecrã qualquer, senta-te e puxa pelo David. Não ganhas nada. Mas mantens viva a única coisa que faz o jogo valer a pena: a suspeita de que, hoje, pode ser diferente.
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