Ver o jogo em casa dos outros
O grande jogo quase nunca se viu sozinho. Viu-se em casa do primo com sinal, no bar da esquina, na sala cheia onde não te sentavas — e era isso, mais do que o resultado, que ficava.
Houve uma altura em que ver o grande jogo não era uma coisa que se fazia sozinho. Era um sítio para onde se ia. Alguém tinha o sinal, alguém tinha o ecrã grande, alguém tinha a coragem de encher a sala de gente que meia hora antes não conhecia — e para lá se marchava, de chinelo, ainda com o sol a descer.
Era em casa do primo que pagava a mensalidade. Era no bar da esquina, onde o dono punha as cadeiras de plástico todas viradas para o mesmo lado, como se fosse um cinema pobre e cheio de razão. Era na varanda do vizinho, onde te sentavas no degrau porque o sofá já tinha dono. E não te importavas. O lugar mau via o mesmo jogo que o lugar bom.
A sala fazia o barulho todo
O que ninguém te disse na altura é que não era o jogo que te ficava. Era a sala. Era o senhor mais velho que explicava a jogada antes de ela acontecer e acertava só o suficiente para ninguém o calar. Era a criança que ninguém tinha convidado e que festejava com mais força que os adultos. Era o silêncio pesado quando o outro lado marcava, e a rua inteira a saber pelo som — sem ver — de que lado tinha caído.
Havia uma regra que nunca foi escrita e toda a gente cumpria: em casa dos outros, festeja-se com respeito. Podias saltar, podias gritar, mas não gozavas o dono da casa que era do rival. Ele deu-te a sala, deu-te o sinal, deu-te a corrente. O mínimo era deixá-lo perder em paz.
Hoje cada um tem o jogo no seu telemóvel, na sua conta, no seu quarto. Vê-se melhor, vê-se em qualquer lado, não se depende de ninguém. E ganhou-se tudo isso e perdeu-se uma coisa só: a sala. Aquela sala cheia, quente, mal sentada, onde o golo não era teu — era de toda a gente ao mesmo tempo.
Da próxima vez que houver jogo grande, não o vejas sozinho. Vai a casa de alguém. Leva qualquer coisa para pôr na mesa. O resultado esquece-se na segunda-feira. A sala, essa, fica anos.
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