A bola murcha e a bomba emprestada
Era uma bola só para o bairro inteiro, e vivia meia murcha. A tarde começava sempre igual: alguém tinha de arranjar a bomba emprestada e dar-lhe ar. Sem isso, não havia jogo — e, ainda assim, nunca faltou jogo.
A bola do bairro vivia meia murcha. Era uma só para toda a gente, passava de pé em pé, de tarde em tarde, e no fim de cada dia estava mais gasta e mais mole do que no princípio. Tinha remendos, tinha a cor já comida pelo sol, tinha a forma a fugir-lhe de tão velha. Mas era a bola — a única — e por isso valia mais do que qualquer bola nova que só se via na televisão.
E a tarde começava sempre pelo mesmo ritual: alguém tinha de lhe dar ar. Faltava sempre a agulha, faltava sempre a bomba, e começava a peregrinação — bate numa porta, bate noutra, “tens a bomba?”, “a agulha partiu-se”, “pede ao mais velho da esquina que ele tem”. Às vezes molhava-se a agulha com saliva para entrar melhor, às vezes a bomba era uma de encher pneu de bicicleta. E demorava, e discutia-se, e metade da tarde ia-se só a pôr a bola em condições.
Sem bomba não havia jogo — mas havia sempre jogo
Porque sem ar não havia jogo. Uma bola murcha não salta, não corre, não faz nada do que uma bola deve fazer — morre no pé, pesa como pedra, estraga o drible mais bonito. E, no entanto, por mais murcha que estivesse, acabava sempre por haver jogo. Dava-se o ar que se arranjava, enchia-se o que se conseguia, e jogava-se na mesma, com a bola meio mole, porque a vontade era maior do que a pressão de ar lá dentro.
Olha-se para trás e percebe-se que aquilo ensinava uma coisa que nenhum campo relvado ensina: a jeitar com o que há. Não havia bola nova, arranjava-se a velha. Não havia bomba, pedia-se emprestada. Não havia relvado, jogava-se na terra. O futebol do bairro era uma aula de desenrascar, e saíamos todos formados nela sem nunca termos ido à escola.
Hoje há bolas a mais, cheias de ar, novas em folha, e por vezes falta é a vontade que sobrava naquele tempo. A bola murcha nunca impediu ninguém de jogar. Faltava o ar, mas nunca faltou a tarde, nunca faltaram os miúdos, nunca faltou o jogo.
Se ainda te lembras de andar de porta em porta à procura da bomba emprestada, sorri. Essa procura fazia parte do jogo tanto como os golos. E a bola murcha que tanto te irritava ensinou-te, sem tu saberes, a jogar com o que a vida te desse — que é a única lição que, no fim, serve mesmo para alguma coisa.
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