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BANCADA
Crónica

Porque é que meio Luanda é do Benfica e a outra metade do Barça

O angolano ama o futebol grande com uma fome que quem está lá dentro já não tem. Meio país herdou o Benfica pela língua e pela rádio; a outra metade escolheu o Barça pelo telemóvel. E quase todos são das duas coisas ao mesmo tempo.

Repara na rua. Numa esquina do Prenda, um miúdo de camisola do Benfica. Na outra, um de Barça. Quando os dois se cruzam, começa a maka — e não é sobre o Girabola. É sobre a Champions.

Não é acaso, e não é de agora. O Benfica, o Porto e o Sporting entraram cá pela língua e pela televisão: foram décadas a ouvir os jogos ao fim de semana no rádio, a herdar o clube do kota lá de casa. É futebol que se passa de pai para filho, como se passa um apelido. Um miúdo do Rangel é do Benfica antes de saber porquê — é do Benfica como é da família.

Depois chegou o outro lado. O Barça do Messi, o Real, o City, o United — não pela rádio, pelo telemóvel. O YouTube com o resumo antes de o jogo acabar, o bué de golos disponível a qualquer hora do dia, o craque que se escolhe porque se viu, não porque se herdou. A geração nova não herdou um clube: apanhou vários e ficou com o que a dava mais alegria.

E aqui está a coisa que ninguém diz

Isto faz de Angola um dos sítios do mundo onde se ama o futebol grande com mais fome — precisamente por não estar lá dentro. Quem nasce em Manchester talvez ache o United uma chatice de domingo. Cá, é acontecimento. Marca-se o dia. Junta-se a malta. Perde-se o sono por um jogo que, no papel, não é nosso.

Mas é. Cá seguimos o campeonato inteiro do sofá e discutimo-lo como se a decisão passasse por nós. O adepto angolano não é um espectador de longe — é dono da conversa. Sabe a escalação, sabe o valor do passe, tem opinião formada sobre o treinador de um clube a dez mil quilómetros. Isso não é distância. É pertença.

E é por isto que este sítio existe. Não para te contar quem ganhou — isso já sabes antes de chegares aqui. É para dar a essa fome um lugar que fala a tua língua, com a tua maka, à tua maneira. O resto do mundo tem o futebol. Nós temos a forma de o amar.

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